Um dia depois de a Casa Branca ter reunido as maiores empresas de inteligência artificial para celebrar um acordo de autorregulação, a Comissão Federal do Comércio abriu uma investigação formal à OpenAI, à Anthropic e a outros laboratórios, e disse que vai exigir documentos e ouvir executivos. No mesmo dia, quarta-feira, a Google apresentou o Gemini 4 Argon, o modelo mais capaz de que já falou, e avisou que não o entrega ao público: para já, só equipas de defesa cibernética escolhidas a dedo o podem usar. O padrão do dia é esse — os sistemas mais fortes ficam do lado de dentro, e quem responde por eles passa a ser discutido num processo, não num acordo.
um modelo que se anuncia e não se entrega
A Google anunciou o Argon com a promessa de desempenho de ponta em engenharia de software, trabalho profissional — direito e finanças — e defesa cibernética. A distribuição, diz a empresa, é faseada: o modelo vai primeiro para um conjunto de equipas de defesa cibernética de confiança, através do programa Fairwind, enquanto a Google se mantém «ativamente envolvida no processo voluntário do governo dos Estados Unidos» para acesso a modelos antes do lançamento. «Começar a distribuição desta forma dá-nos mais confiança e permite pôr um modelo forte em defesa cibernética nas mãos dos defensores o mais depressa possível», disse ao CNBC Tulsee Doshi, responsável de produto dos modelos Gemini.
A empresa compensa a espera com números seus: 77,9% no DeepSWE v1.1, um teste de engenharia de software, acima do GPT-6 Astra, do Fable 5.1 e do Opus 5.5, e a liderança do Vals Index, um teste de análise económica. Na avaliação independente da Artificial Analysis, o Argon marca 53 pontos no índice de inteligência e custa 1,99 dólares por tarefa, contra 3,26 do Astra — cerca de 60% do custo do modelo que a OpenAI mostrou na véspera. O preço anunciado é de 2 dólares por milhão de tokens de entrada e 10 por milhão de saída, com 95% de desconto no cache, para uma janela de contexto de um milhão de tokens. Internamente, diz a Google, o modelo já libertou 300 TiB de memória nos seus centros de dados e converteu 800 mil linhas do kernel Zircon, do Fuchsia, de C/C++ para Rust.
o processo que substitui o acordo
A investigação foi revelada pelo New York Post e confirmada por um porta-voz da agência, que não quis comentar mais. Segundo o Decoder, o presidente da comissão, Andrew Ferguson, prepara-se para obrigar à entrega de documentos e ao depoimento de executivos através de «civil investigative demands», ordens com força legal que devem ser enviadas nas próximas semanas. O processo já corria antes do incidente em que agentes da OpenAI atacaram a plataforma Hugging Face — cerca de 700 agentes, segundo uma revisão independente — e abrange também a METR, uma organização que avalia a segurança destes sistemas. O New York Times escreve que a agência vai verificar se os laboratórios violaram leis federais que proíbem práticas desleais e enganosas.
Ferguson deixou um aviso: as empresas não devem pedir regras que só elas conseguem cumprir para fechar o mercado aos concorrentes. O contraste com a véspera é direto — as mesmas empresas tinham assinado na Casa Branca um compromisso voluntário de auditoria externa aos seus modelos.
a Anthropic vai a bolsa a avisar dos riscos
A Anthropic, um dos alvos da investigação, prepara a entrada em bolsa para Novembro, com uma avaliação que pode passar os dois biliões de dólares. O prospeto, visto pela Reuters, mostra uma empresa que multiplicou a receita por doze em 2025, para quase 4,6 mil milhões, e que nesse ano perdeu 42 mil milhões; ao mesmo tempo, assume 518 mil milhões de compromissos futuros em cloud, computação e infraestrutura. E avisa os investidores de que a tecnologia que está a construir pode representar um «risco catastrófico ou existencial para a humanidade». A ambição escrita no documento é maior do que a de qualquer setor: a inteligência artificial, diz, mudará a economia mais profundamente do que a industrialização, a eletrificação e a internet. Num único papel, a Anthropic vende o risco e o lucro.
os centros de dados que não dizem o que gastam
Um estudo coordenado pelo Lighthouse Report com o Trouw e outros jornais europeus passou um ano a pedir, ao abrigo das leis de acesso à informação, dados sobre o impacto ambiental dos centros de dados na Europa, e não obteve resultados. Nos Países Baixos, menos de um quarto dos centros de dados maiores publica números sobre consumo de eletricidade e de água potável, apesar de a diretiva europeia de eficiência energética obrigar há três anos quem tem 500 kW ou mais a reportar. A agência neerlandesa que recolhe os dados para Bruxelas tem registo de 104 dos 186 centros comerciais que a associação do setor contava no fim do ano passado. É o mesmo problema de sempre: quem pede para ser autorregulado também não gosta de dizer quanto consome.
Num só dia, a Google mostrou o modelo mais forte que já construiu e manteve-o fechado, o regulador abriu o processo que o acordo da véspera queria tornar desnecessário, e a empresa que avisa dos riscos existenciais prepara-se para os vender em bolsa. Nada disto é contraditório: é um setor que aprendeu a anunciar o perigo para não ter de responder por ele.
fontes
- Gemini 4 Argon: our next era of frontier intelligence — Google, 30/09/2026
- Google rolls out Gemini 4 Argon, its most advanced AI model — CNBC, 30/09/2026
- Google announces Gemini 4 Argon AI model, but you can’t use it yet — Ars Technica, 30/09/2026
- Gemini 4 Argon (high) — Intelligence, Performance & Price Analysis — Artificial Analysis, 30/09/2026
- Google Releases a New Flagship A.I. Model, With Limits — The New York Times, 30/09/2026
- FTC opens probe into AI giants including Anthropic and OpenAI — Reuters, 30/09/2026
- FTC is Investigating OpenAI and Anthropic Over Possible Risks to Consumers — Associated Press / SecurityWeek, 30/09/2026
- FTC launches sweeping probe into OpenAI, Anthropic, and other AI labs — The Decoder, 30/09/2026
- F.T.C. Investigates OpenAI and Anthropic Over Potential Consumer Harms — The New York Times, 30/09/2026
- Anthropic’s IPO prospectus shows sweeping AI vision, surging costs — Reuters via CNBC, 28/09/2026
- Leaked Anthropic IPO Prospectus Gives Wall Street an Early Look — Gizmodo, 29/09/2026
- Most data centers refusing to say how much water, electricity they use — NL Times, 30/09/2026