Na sexta-feira, um painel de três juízes do tribunal de recurso do circuito de Washington deu razão ao Pentágono: para o direito federal, a Anthropic é um risco para a cadeia de fornecimento da defesa, porque se recusa a deixar os seus modelos fazer tudo o que o Departamento da Defesa pede. Dois dias depois, no domingo à noite, o presidente da empresa, Dario Amodei, jantou na Casa Branca com Donald Trump. Foi a primeira reunião a dois entre os dois, confirmada à CNBC, e chega depois de meses em que a mesma administração tentou tirar a Anthropic do aparelho de Estado. No mesmo fim de semana, Trump voltou a dizer que não vê motivo para travar a IA.
o que o tribunal decidiu
A decisão saiu a 25 de setembro e passou por dois votos contra um. A maioria — Gregory Katsas e Neomi Rao, ambos nomeados por Trump — escreveu que o secretário da Defesa, Pete Hegseth, «não transgrediu nenhum limite da sua autoridade». O ponto fino é uma separação de leis. Um tribunal em São Francisco já tinha anulado uma das designações ao abrigo da lei de aquisições militares (10 U.S.C. §3252), que exige má-fé; o circuito de Washington reviu a outra designação ao abrigo do §4713, onde «qualquer pessoa» basta e a palavra «negar» cobre o caso de a Anthropic impedir o Governo de usar funções do Claude. A juíza Karen Henderson votou vencida: a lei não foi feita para castigar «o cumprimento honesto e declarado de restrições».
O acórdão admite que o caso é difícil: fala da «perspetiva profundamente sóbria» de modelos sem restrições «alucinarem alvos inadequados para a força letal» e, do outro lado, da de modelos demasiado apertados se desligarem «inesperadamente» e fazerem falhar operações militares. A Anthropic diz que discorda e admite recorrer — para o plenário do tribunal ou para o Supremo. Tem onde se agarrar: no processo paralelo, na Califórnia, a juíza Rita Lin considerou a designação ilegal e escreveu que «a invocação vazia da segurança nacional não é um cheque em branco para punir e retaliar críticos do Governo». A empresa já tinha dito que «outro tribunal federal considerou ilegal a designação paralela do Governo».
o que a empresa não deixou usar
A origem está em fevereiro. O Departamento da Defesa queria acesso sem condições aos modelos, para todos os fins legais; a Anthropic queria garantias de que não seriam usados em armas totalmente autónomas nem na vigilância em massa de americanos. As conversações romperam-se e Hegseth acusou a empresa de «duplicidade» e de tentar forçar a mão às forças armadas. Em março, a administração Trump ordenou às agências federais que deixassem de usar produtos da Anthropic e proibiu os empreiteiros da defesa de trabalhar com ela; a empresa foi a tribunal nesse mês. Na sexta-feira, o responsável de tecnologia do departamento, Emil Michael, escreveu no X que «o martelo da justiça esmagou» os argumentos da Anthropic e que os militares vão dormir melhor sabendo que «nenhuma empresa privada vai meter as suas opiniões na cadeia de comando».
Não é, porém, a posição de todo o Governo. O secretário do Comércio, Howard Lutnick, que em junho impôs controlos de exportação a dois dos modelos mais avançados da empresa, diz agora que a Anthropic está «do lado certo» e que confia nela; o diretor do gabinete de ciência e tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, diz que a administração está «numa boa cadência» com a empresa. Quem negoceia com o Comércio passou a ser o cofundador Tom Brown, no lugar de Amodei, segundo a CNBC. São dois interlocutores — o Pentágono e a Casa Branca — com duas políticas para a mesma empresa.
o jantar de domingo
Amodei não estava no jantar de Estado oferecido a Xi Jinping, na quinta-feira, onde Sam Altman, Elon Musk, Jensen Huang e Mark Zuckerberg foram fotografados. Teria tido um conflito de agenda, e Trump convidou-o para um jantar privado — foi o Axios que o noticiou primeiro. O historial não ajudava: Amodei apoiou Kamala Harris em 2024 e, este mês, publicou uma proposta em três passos para abrandar o ritmo dos modelos avançados, com mais supervisão do Estado. Ganhou o apoio de Altman e de Musk e a ira do presidente, que escreveu no Truth Social que o único controlo de que a IA precisa é «um presidente forte e inteligente» e que Amodei estava agora a fazer-se passar por «anjinho».
A Casa Branca disse à CNBC que «a América vai liderar o mundo em superinteligência». A empresa prepara a entrada em bolsa que a mesma estação descreve como de grande dimensão, e a relação com o Governo é um dos riscos desse processo. Do lado do Departamento da Defesa, nada mudou na sexta-feira: «Confirmado: a Anthropic é um risco para a cadeia de fornecimento», escreveu Hegseth.
do outro lado do Pacífico, a porta abre-se
Na cimeira de quinta-feira, Trump e Xi Jinping terminaram sem acordo relevante sobre IA: as duas potências continuam sem regras comuns para a tecnologia que ambas dizem ser decisiva. No domingo, o The Information escreveu que o ministério da indústria e tecnologias de informação da China pediu à ByteDance e à Alibaba que declarassem os planos de compra da placa RTX PRO 5500, da Nvidia, e disse a algumas empresas que conta aprovar as compras. Executivos do setor esperam que este modelo escape aos controlos de exportação americanos. A notícia assenta em duas fontes anónimas e a Reuters não a conseguiu confirmar.
A Nvidia respondeu que as empresas americanas continuam limitadas por «controlos de exportação desatualizados, que cobrem produtos de jogo lançados há quase meia década», e pelos próprios limites chineses às importações. O retrato do fim de semana fica assim: em Washington, o Governo classifica um laboratório americano como risco e convida-o para jantar; em Pequim, abre-se a porta aos chips americanos que a Casa Branca quer manter fechada.
fontes
- Court rules Pentagon can blacklist Anthropic for refusing to enable Claude features — Ars Technica, 25/09/2026
- Appeals Court Lets the Pentagon Designate Anthropic a Supply-Chain Risk — WIRED, 25/09/2026
- Anthropic’s Blacklisting by the Pentagon Was Legal, Federal Judges Rule — The New York Times, 25/09/2026
- Dario Amodei set to have dinner with Trump after missing state dinner — CNBC, 27/09/2026
- Dario Amodei of Anthropic to Dine With Trump at White House — The New York Times, 27/09/2026
- Trump and Chinese president Xi end summit without major agreement on AI — The Guardian, 25/09/2026
- China may let ByteDance, Alibaba buy new Nvidia chips: The Information — CNBC, 27/09/2026
- Trump-Xi summit analysis: ‘Tangible outcomes’ needed for U.S.-China truce to hold — CNBC, 28/09/2026