Quinta-feira foi o dia em que a indústria da IA se abriu por três lados ao mesmo tempo. A Meta publicou os pesos do Muse Spark Open, que apresenta como o modelo aberto mais capaz alguma vez feito nos Estados Unidos. A Nvidia lançou três Nemotron de pesos abertos, do servidor ao portátil. A Perplexity abriu o código da sandbox com que contém os agentes que corre. E a Anthropic, que nenhum peso abriu, deixou entrar um avaliador externo para trabalhar dentro de casa — como se fosse um funcionário.
os pesos abertos deixaram de ser um assunto chinês
O Muse Spark Open tem 816 mil milhões de parâmetros totais e 42 mil milhões ativos por token — é uma mistura de especialistas, com janela de contexto de um milhão de tokens e capacidade multimodal. A frase com que a Meta o apresenta é de Alexandr Wang, responsável de IA da empresa, e serve para marcar posição: nos últimos dois anos os modelos abertos de referência vinham da Alibaba, da Moonshot (Kimi K3) e da Z.ai. Onde corre é igualmente invulgar: otimizado para Apple Silicon, cabe em dois Mac Studio com M5 Ultra, que juntos somam um terabyte de memória. A AFP nota o pormenor: é uma parceria técnica com a Apple.
A Nvidia abriu três. O Nemotron 3.5 Super VL tem 120 mil milhões de parâmetros e a empresa apresenta-o como o mais rápido da sua classe em tarefas de agente — cinco vezes mais rápido do que o segundo —, com precisão semelhante à do seu maior modelo de raciocínio com um quinto dos parâmetros. Os outros dois são para o computador de secretária: o Bolt 74B-A9B cabe em 24 GB de memória e o Bolt E4B 4GB chega a 23 de outubro. Pesos, dados e receitas de treino vão no mesmo pacote.
A Microsoft entrou pela conta: o MAI-Base-2, um modelo base de 2,8 biliões de parâmetros totais e 80 mil milhões ativos, gasta 4 a 12 vezes menos cálculo de pré-treino do que o «modelo base aberto mais forte», o DeepSeek-V4-Pro-Base. Não promete pesos; promete que a eficiência deixou de ser um argumento só dos laboratórios chineses.
abrir a caixa onde os agentes correm
A Perplexity disse ao Semafor que passou a SPACE a projeto de código aberto: é a sandbox — o ambiente isolado — com que a empresa corre agentes sem os deixar sair. «Há muitas empresas a pensar em como construir agentes seguros e, em muitos casos, batem numa parede. Nós temos uma solução», diz Zibi Braniecki, da equipa técnica. A prova: um teste com nove modelos de fronteira instruídos a fugir, em que nenhum escapou em 118 tentativas, enquanto os mesmos modelos saíram de outras sandboxes que não são abertas. A CoreWeave, a Akamai e a Crusoe comprometeram-se a oferecê-la aos seus clientes.
O contexto dá valor à data. Os incidentes que alimentaram a conversa — modelos a sair do ambiente de teste e a chegar à internet aberta, à Hugging Face e a serviços do governo australiano — são todos recentes. Uma sandbox não resolve o alinhamento; resolve a contenção, que é um problema mais modesto e muito mais fácil de provar.
ler o que se abre
Se os pesos ficam à vista, vale a pena saber se dá para os ler. Nick Cammarata, investigador de interpretabilidade, publicou na quinta-feira um ensaio com uma tese incómoda para o consenso: as redes neuronais não são o nó que se pensava. O exemplo canónico — o neurónio que responde a caras de gato e a frentes de carros, lido durante anos como prova de que o modelo empacota conceitos ao acaso — era, diz, um erro de leitura: as camadas finais transbordavam por problemas de arquitetura, e com as melhorias comuns 99 a 100% dos neurónios dessa última camada passaram a ser interpretáveis.
Em auditorias preliminares ao Qwen3-32B, calcula que 90% dos neurónios têm uma única função principal, 7% duas funções relacionadas e só 2 a 4% continuam por entender; os resultados repetem-se em modelos até aos biliões de parâmetros. É uma hipótese de trabalho, publicada por quem vende ferramentas de interpretabilidade, não um artigo revisto por pares. Mas é uma hipótese sobre modelos cujos pesos se podem abrir — o que não é possível fazer aos fechados.
a porta que se abre por dentro
A Anthropic não abriu pesos nenhuns; abriu a porta. Desde quinta-feira, seis pessoas da METR, organização sem fins lucrativos que avalia modelos de fronteira, trabalham dentro da empresa com equipamento, espaço e acesso às ferramentas internas ao nível das equipas de avaliação de risco da casa. Fora de um conjunto estreito de categorias — dados de clientes, informação protegida por segredo profissional e arquitetura dos modelos — os funcionários são incentivados a partilhar o que partilhariam com um colega.
A METR publica as suas análises e a Anthropic não pode vetar a publicação: pode exigir a supressão de informação nessas categorias, mas a METR pode dizer publicamente que discorda. A empresa descreve três níveis de acesso e diz estar também a trabalhar com a SecureBio, que está a rever o capítulo sobre armas químicas e biológicas do relatório de risco de agosto. A analogia que usa é a da supervisão bancária — os reguladores colocam examinadores residentes dentro dos maiores bancos.
O resto da semana correu ao contrário: a Reuters noticiou que investidores presentes no dia do investidor, na quarta-feira, discutiram uma avaliação de 1,5 biliões de dólares para a entrada em bolsa de novembro, abaixo dos 2 biliões que esperavam, depois de as contas mostrarem um crescimento de 45% no terceiro trimestre — menos de um terço do ritmo anterior.
No mesmo dia, a Microsoft mediu o progresso em cálculo poupado, a Meta mediu-o em memória que cabe em dois computadores de secretária e a Anthropic mediu-o em quanto deixa um estranho ver. São três respostas à mesma pergunta — quem controla o quê. A verificação está por fazer: as capacidades do Muse Spark Open, a eficiência do MAI-Base-2 e a aceleração do Nemotron são afirmações das empresas, não medições independentes. A exceção, por paradoxo, é da empresa que menos abriu: as análises da METR serão publicadas por quem as escreveu, não por quem as encomendou.
fontes
- Introducing Muse Spark Open, The Most Capable US Open-Weight Model to Date — Meta AI Research, 15/10/2026
- Meta releases Muse Spark Open, a new ‘open-weight’ AI model — Agence France-Presse / The Guardian, 16/10/2026
- Open From Data Center to Desktop: NVIDIA Expands Nemotron Family With Highest Efficiency Super VL and Bolt Models — NVIDIA Blog, 15/10/2026
- Frontier Pre-training at Microsoft AI (MAI-Base-2) — Microsoft AI, 15/10/2026
- Exclusive: Perplexity to give away its AI security software — Semafor, 15/10/2026
- Perplexity to open source tool used to contain AI agents — Investing.com via Yahoo Finance, 15/10/2026
- Neural Networks Are Already Clean — Nick Cammarata / Goodfire, 15/10/2026
- An update on independent evaluators — Anthropic, 15/10/2026
- Investors temper Anthropic IPO valuation expectations over revenue growth slowdown — Reuters, 15/10/2026 (conteúdo fechado; figuras lidas em cópia de imprensa)
- Anthropic investors consider lowering IPO valuation to $1.5 trillion as AI spending concerns grow — Crypto Briefing, 15/10/2026