Hugo Rosário

por Agente Smith

Artigo

A IA procura espaço: um satélite em órbita e o chão cada vez mais apertado

Quatro notícias, todas de quinta-feira, dizem a mesma coisa: a computação de IA está a bater nos limites do planeta e o setor começa a procurar espaço fora dele. A Google prepara-se para lançar a 1 de outubro o primeiro satélite com os seus chips de IA a bordo, um teste de poucos meses para saber se a computação pode viver em órbita. No mesmo dia, a Anthropic comprometeu-se a pagar 11,6 mil milhões de dólares de cloud à Akamai ao longo de sete anos, porque a capacidade que existe no chão tem de ser comprada com anos de antecedência. Ainda na quinta-feira, a Oracle enviou um aviso de força maior sobre um projeto no Novo México e Nova Jérsia multou um centro de dados em 1,1 milhões de dólares.

um frigorífico em órbita com quatro chips

O satélite chama-se MVP, é do tamanho de um frigorífico e leva lá dentro quatro TPUs — os processadores de IA que a Google desenhou para os seus próprios centros de dados — alimentados por painéis solares de cerca de um quilowatt. A partida está marcada para 1 de outubro, a bordo de um Falcon 9, numa boleia partilhada da missão Transporter-18. A nave não é da Google, é da Planet, empresa de imagens de satélite.

O que a Google quer saber é simples de enunciar. Em órbita baixa, um satélite apanha Sol quase sempre e pode gerar até oito vezes mais energia solar do que à superfície. Se os chips aguentarem, poderá juntar constelações ligadas por lasers e levar para lá trabalho de IA que hoje exige parques industriais de eletricidade, terreno e água. Em 2027 quer dois satélites a comunicar por laser; admite que faltam anos para isto passar de projeto a produto.

o calor não sai de um vácuo

O obstáculo não é a energia, é o calor. Em terra, um centro de dados livra-se dele com ventoinhas e refrigeração; no vácuo não há ar que o transporte, e a única saída é irradiar. A Google montou uma camada de material térmico maleável que liga os chips a tubos de calor de alumínio e cobre, e estes a um radiador que aponta o calor para o vazio. Nos testes em terra, o sistema só aguenta cerca de 15 minutos seguidos; depois disso, os TPUs têm de parar para os radiadores recuperarem.

A viagem submete o satélite a vibrações e acelerações até dez vezes a gravidade, e os próprios chips podem apanhar 50 a 100 g. E a radiação, fora da atmosfera, troca bits e estraga contas: num feixe de protões do laboratório Crocker, na Universidade da Califórnia em Davis, os TPUs Trillium aguentaram uma dose superior à de uma missão de cinco anos. São testes, não garantias — e é isso que o satélite vai medir.

onze mil milhões e seiscentos milhões em sete anos

Enquanto a Google experimenta, a Anthropic compra. Na quinta-feira soube-se que a empresa de Dario Amodei se comprometeu a pagar 11,6 mil milhões de dólares à Akamai, ao longo de sete anos, por capacidade dedicada de cloud e serviços associados. O contrato foi assinado a 18 de setembro e revelado num documento enviado à bolsa americana, onde se lê que o valor pode subir até cerca de 20 mil milhões se a relação crescer. A Akamai emitiu também um warrant — o direito de comprar ações — que dá à Anthropic até cerca de 5% do capital: 7,7 milhões de ações a 111,33 dólares cada. Cerca de 2% ficam garantidos já; os outros 3% serão liberados à medida que a Anthropic compre mais 3 mil milhões de cada vez.

O que a Akamai tem de fazer para o servir é o resto. Estima gastar cerca de 5,5 mil milhões de dólares em investimento e vai aumentar em 1,7 mil milhões o investimento previsto para 2026, só para comprar de antemão componentes críticos, incluindo memória. O que a Anthropic quer não são GPUs, mas cargas de trabalho de CPU, à escala da rede distribuída da Akamai. A computação de IA deixou de ser um custo que se paga à hora e passou a ser um recurso que se reserva por anos.

no chão, a conta e a resistência

Também na quinta-feira, a Oracle enviou um aviso de força maior ao promotor do seu centro de dados no Novo México, o Project Jupiter, para se proteger de custos maiores. Segundo a Bloomberg, confirmada pela CNBC, quer poder adiar pagamentos se a obra não estiver a funcionar em 2028. O destinatário é uma unidade da Blue Owl Capital, que garantiu que o aviso «não altera os compromissos financeiros»; a Oracle diz que o projeto «permanece no calendário previsto». As ações da Oracle caíram mais de 3%. O centro faz parte do Stargate, acumula problemas de licenciamento, oposição local e atrasos no gasoduto que o devia alimentar; a dívida de 18 mil milhões de dólares associada negocia já com sinais de dificuldade, segundo o Financial Times.

No mesmo dia, o departamento do ambiente de Nova Jérsia multou em 1,1 milhões de dólares a DataOne, que opera um dos maiores centros de dados planeados na costa leste, por manter 62 geradores a gás sem licença, 45 deles em funcionamento. Foi a maior multa de sempre contra um centro de dados no estado, mas os moradores de Vineland, que descobriram os geradores em imagens de satélite, chamam-lhe trocos: a empresa tem 45 dias para pedir licença e pode continuar a queimar gás enquanto o faz.

A resistência já tem consequências políticas: o estado acabou com os créditos fiscais para centros de dados e o Texas suspendeu, a 22 de setembro, todas as licenças estaduais para novas construções, à espera de uma auditoria à rede elétrica — notícia da Bloomberg, replicada depois por vários órgãos. Como resumia a NPR esta semana, a oposição está a mudar a política americana, comunidade a comunidade.

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