Na quinta-feira, drones ucranianos atingiram o centro de dados da Yandex em Sasovo, onde a empresa russa guarda dois dos três supercomputadores que treinam o YandexGPT. Na sexta, foi a vez do de Kaluga, o maior da empresa. No domingo, o terceiro em quatro dias: Vladimir, a leste de Moscovo, com as operações «completamente suspensas». Dois dos cinco centros de dados da Yandex estão fora de serviço e o painel de estado da sua cloud chegou a listar 84 serviços em baixo, do chatbot às apps de táxis e de banca. Em quatro dias, a inteligência artificial deixou de ser um assunto de software e mostrou onde assenta: em betão, eletricidade e risco físico. O resto da semana tratou dos outros limites: licenças e investidores.
três ataques em quatro dias
O primeiro, em Sasovo, alberga dois dos três supercomputadores que treinam o YandexGPT. O segundo, em Kaluga, foi desenhado para ser o maior da Rússia: 130 mil metros quadrados, 63 megawatts e espaço para mais de 3800 racks. O terceiro, no domingo, foi em Vladimir. Ninguém ficou ferido, diz a empresa, que considera «muito difícil prever» quando os serviços voltam. Pelos relatos do Meduza e da Reuters, caíram a plataforma de vídeo Ivi, o banco digital T-Bank, a empresa estatal de caminhos de ferro e uma app de encontros.
Medido de fora, o estrago é visível. A NetBlocks registou o tráfego da Yandex Cloud a 30% do normal e o da Yandex LLC a 63%. A Cloudflare mede outra coisa: o tráfego automático a sair da rede da Yandex caiu para 0,4% do máximo das últimas duas semanas, depois de uma primeira queda para 57% na quinta-feira. Diz menos sobre a empresa do que sobre a concentração daquela infraestrutura. A Ucrânia diz que ataca fontes de receita da máquina de guerra russa; a Rússia ataca centros de dados ucranianos desde o final de setembro. «Outro centro de dados foi atingido — a nossa resposta simétrica», escreveu Volodymyr Zelensky.
a floresta e o regulador
Na terça-feira, a autoridade finlandesa de licenciamento e supervisão ordenou à Google que suspendesse imediatamente as obras preparatórias em dois centros de dados, em Muhos e Kajaani. Através da Tuike Finland Oy, tinha cortado 330 hectares de floresta em Muhos sem concluir a avaliação de impacto ambiental obrigatória, e cerca de 200 hectares em Kajaani. Os dois sítios fazem parte de um investimento de 13 mil milhões de euros anunciado há um mês, o maior da Google na Europa. A suspensão tem de estar feita até 23 de outubro e a empresa tem de se explicar até 14 de outubro.
A Google respondeu que ficou «aquém dos seus próprios padrões» e que agiu de boa-fé ao abrigo da lei florestal. A associação finlandesa de conservação da natureza diz que o sítio «já não é uma floresta, é uma área de areia» e atribui o problema ao mercado «sobreaquecido» dos centros de dados, que empurra as empresas a acelerar processos em municípios sem capacidade para os avaliar.
o dinheiro hesita
Na sexta-feira, a australiana Firmus Technologies cancelou aquela que seria a maior estreia em bolsa do país desde a Telstra, em 1997. Queria levantar 7 mil milhões de dólares a 11 dólares por ação, com a Nvidia, a Blackstone e a Coatue entre os investidores, e uma cotação marcada para 23 de outubro. A procura não apareceu: as ações de um dos investidores, a Maas Group, caíram mais de 20% na quinta-feira, e esta semana a CDC pôs fim ao projeto conjunto de 73 mil milhões que tinha com a Firmus.
O dinheiro, porém, não parou. A Bloomberg noticiou esta segunda-feira que a Bridge Data Centres, da Bain Capital, negoceia mais do que duplicar junto dos bancos um empréstimo de 2,8 mil milhões de dólares para cerca de 6,6 mil milhões. E quem já tem capacidade está a assinar por mais tempo: a Cipher estendeu para 20 anos os compromissos de arrendamento do seu campus Barber Lake. Nos modelos, ninguém hesita: a Amazon negoceia a compra da startup israelita Decart por cerca de 7 mil milhões de dólares, mais do que os 6,5 mil milhões que pagou pela MGM em 2022. A Decart faz software que facilita mudar de chip e modelos de mundo, o Lucy e o Oasis.
quem decide, e quem paga
Enquanto a Finlândia suspende obras, a Austrália acelera-as. O Guardian revelou no domingo que a Amazon declarou 538 mil dólares em pagamentos a estruturas do Partido Trabalhista e do Partido Liberal australianos ao longo de seis anos, incluindo 46 500 dólares ao braço federal trabalhista pouco depois de Anthony Albanese ter visitado a sede da Amazon Web Services, onde a empresa apresentou um plano de 20 mil milhões para centros de dados na Austrália. Em 2024, a Amazon declarou 33 mil dólares oito dias antes de o governo anunciar um contrato de 2 mil milhões para três centros de dados classificados.
Os pagamentos são legais — muitos são quotas de fóruns de acesso a ministros — e a Amazon diz que são antigos e nada têm a ver com investimentos públicos. O mesmo jornal encontrou um antigo primeiro-ministro do Queensland a fazer lobbying para uma empresa de centros de dados. Para a Transparency International Australia, «os centros de dados são as novas indústrias extrativas, mas usam as técnicas antigas».
Foi uma semana em que a IA se viu de fora: num parque industrial em Kaluga, numa floresta finlandesa reduzida a areia, numa bolsa em Sydney. Os constrangimentos mudaram de sítio — drones, licenças ambientais, dinheiro mais exigente. Nada disto se resolve com mais uma geração de modelos: a próxima fase desta indústria decide-se em quem consegue construir, licenciar e defender o lugar onde a computação vive.
fontes
- Yandex: Ukraine strikes data centre in third attack on Russian tech giant — BBC, 11/10/2026
- Russia’s Yandex bot traffic nearly eliminated overnight after Ukraine drone strikes — Tom’s Hardware, 11/10/2026
- Ukraine’s drones knock out AI data center belonging to ‘Russia’s Google’ — Ars Technica, 09/10/2026
- Ukraine hits second major tech site, expanding range of targets inside Russia — Reuters, 09/10/2026 (conteúdo fechado)
- Yandex Takes a Second Data Center Hit in 48 Hours — UNITED24 Media, 09/10/2026
- Drone Strike Hits Yandex Data Center in Vladimir, Triggering Major Outages — Kyiv Post, 11/10/2026
- Bot traffic from Yandex (AS13238) — Cloudflare Radar, consultado a 12/10/2026
- Finland orders halt to work on two Google data centres — BBC, 06/10/2026
- Google told to halt work on datacentres in Finland over environmental concerns — The Guardian, 06/10/2026
- Firmus pulls biggest ASX float since Telstra amid investor doubt — The Guardian Australia, 09/10/2026
- Bain’s Bridge Data Centres Seeks to Upsize Loan to $6.6 Billion — Bloomberg, 12/10/2026 (conteúdo fechado)
- Cipher extends Barber Lake data center lease commitments to 20 years — Data Center Dynamics, 10/10/2026
- Amazon Weighs $7 Billion Purchase of AI Startup Decart — PYMNTS, a partir do Wall Street Journal, 11/10/2026
- Amazon in talks to buy AI startup Decart for around $7B, WSJ reports — Reuters, 11/10/2026 (conteúdo fechado)
- How datacentres play the political game in Australia — The Guardian Australia, 11/10/2026