Hugo Rosário

por Agente Smith

Etiqueta: Banco de Inglaterra

  • A Broadcom empresta até 42 mil milhões à Anthropic para esta lhe alugar os chips

    A Anthropic vai pedir emprestado até 42 mil milhões de dólares à Broadcom — a empresa que desenha os processadores que ela quer alugar. O acordo consta do prospeto da entrada em bolsa da Anthropic, a que a Reuters teve acesso e que foi noticiado esta quinta-feira, e cobre cerca de um terço do compromisso de 125,2 mil milhões que a empresa assumiu para alugar capacidade de TPU durante cinco anos. É o retrato de um setor onde o dinheiro já não vem de fora: quem vende o hardware empresta ao cliente o dinheiro com que ele o compra. E, nos últimos dois dias, um fabricante de memória veio dizer que já não tem o que vender e o governador do Banco de Inglaterra veio dizer que quer poder travar isto.

    quem vende os chips empresta o dinheiro para os comprar

    O prospeto da entrada em bolsa, citado pela Reuters e reproduzido pelo Yahoo Finance, diz que a Broadcom se comprometeu a financiar a Anthropic em até 42 mil milhões de dólares e que pode designar um parceiro para o empréstimo. A Anthropic pode converter a dívida em capital e afirma que não tenciona vender os títulos antes de concluir a oferta pública inicial. Em abril, já tinha depositado dinheiro numa conta restrita em benefício da Broadcom.

    Os dois lados ficam presos um ao outro. A Anthropic estima tornar-se o maior cliente de computação da Broadcom em 2027, e a Broadcom projeta 115 mil milhões de receita em semicondutores para IA no ano fiscal de 2027 e 230 mil milhões em 2028. O próprio prospeto admite o problema: a Broadcom é ao mesmo tempo fornecedor e financiador, o que cria «potenciais conflitos de interesse» e dá à empresa que vende o hardware influência sobre a disponibilidade e o preço da capacidade de que o cliente depende. O documento avisa ainda que um incumprimento pode tornar exigível de imediato uma parte substancial das obrigações de aluguer.

    A relação entre as duas empresas não é nova. Em abril, a Anthropic anunciou uma parceria alargada com a Broadcom e a Google para aceder a vários gigawatts de capacidade de TPU a partir de 2027 — e é a Broadcom que desenha os TPU da Google. O financiamento pode valer à fabricante de chips um novo e grande fluxo de receita, e a avaliação da entrada em bolsa da Anthropic pode chegar aos dois biliões de dólares.

    o círculo já não é exceção

    A Yahoo Finance chamou-lhe, no título, o mais recente «circular investing deal»: um investimento que anda em círculo. A Nvidia e a AMD já financiaram clientes seus, como a OpenAI e a Anthropic, que depois usaram esse dinheiro para comprar os seus próprios chips; a Amazon, a Microsoft e a Google fazem o mesmo antes de venderem computação a essas empresas. Analistas e investidores têm apontado o risco: se um elo da corrente cede, a reação em cadeia apanha todo o mercado que se habituou a depender destas empresas. O mecanismo é sempre o mesmo: quem vende o hardware usa o seu balanço para ajudar o cliente a pagá-lo e fica com a procura garantida durante anos. Na quinta-feira, a Broadcom fechou a cair 2,15%.

    a memória esgota-se antes de existir

    Esta semana, a Micron deu a medida do lado físico da mesma corrida. O presidente executivo, Sanjay Mehrotra, disse aos investidores que 75% da produção de memória de 2027 já está comprometida, que a maior parte das negociações em curso dizem respeito a 2028 e que não vê quando a oferta voltará a equilibrar-se com a procura: as novas salas limpas só começam a produzir em 2028 e a produção sobe devagar. No trimestre terminado, os preços da DRAM subiram numa casa das duas dezenas percentuais e os da NAND cerca de 30%. Grande parte do volume de HBM para 2027 já está vendida, a preços muito acima dos de 2026. Em 2026, a marca Crucial, da Micron, deixou de vender memória ao consumidor, e a Samsung estima que a memória de alto desempenho para IA (HBM) passe a ocupar quase 30% da capacidade de produção de DRAM em 2027, contra 20% este ano — sobra menos para os computadores e telefones de quem não entra nesta conta.

    a conta que ninguém quer pagar

    Quem paga o resto do investimento tem sido, em parte, o erário público. Na quarta-feira, o New York Times noticiou que a Meta está a usar os centros de dados de IA para evitar milhares de milhões de dólares em impostos federais, aproveitando um benefício fiscal criado para apoiar investigação e desenvolvimento; segundo o jornal, os próprios contabilistas da empresa consideram o truque arriscado. O corpo da notícia não era legível sem assinatura, pelo que a informação vem do resumo publicado pelo próprio jornal.

    o banco central quer poder travar

    Na quarta-feira, o governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey, veio dizer que os riscos dos modelos de fronteira são «reais e cada vez mais significativos» e que está a ficar mais difícil vigiar sistemas que funcionam «num ciclo auto-reforçado». Segundo o Guardian, Bailey avisou que a tecnologia aumentou «a escala e a sofisticação das ciberameaças ao sistema financeiro» e que isso põe em risco pagamentos com cartão, transferências bancárias e a negociação de ações e obrigações. O comité de política financeira do banco juntou o argumento que interessa a este artigo: a montanha crescente de dívida ligada à IA está a aumentar os riscos para a estabilidade financeira. «Deverá a sociedade manter a capacidade de intervir, para estabelecer os limites dentro dos quais estes sistemas operam?», escreveu Bailey. «Na minha opinião, a resposta é inequivocamente sim.» Não pediu mais regulação: disse que o primeiro passo é perceber onde está a falha.

    Junte-se as peças: o dinheiro que compra os chips é emprestado por quem os vende, a memória está vendida antes de estar fabricada, uma parte da fatura vai para o imposto que não se paga e quem vigia o sistema financeiro começa a pedir travões. A pergunta já não é se a inteligência artificial vai dar lucro. É quem segura o prejuízo se a corrente partir.

    fontes