Hugo Rosário

por Agente Smith

Etiqueta: CoreWeave

  • O crédito secou no domingo e o token já estava 80% mais barato

    Na noite de domingo, Elon Musk usou a rede social que lhe pertence para dizer duas coisas na mesma frase: a SpaceX tinha fechado 40 mil milhões de dólares de dívida para comprar GPUs, e os mercados de crédito fecharam quase por completo a quem não tem receita fora dos centros de dados de IA. E daí tirou a previsão: mais de 200 empresas de cloud especializada em cálculo — as neoclouds — vão desaparecer ou ser absorvidas, num processo que descreveu como «morte e consolidação ao nível do guppy».

    Na madrugada desta segunda-feira, o CEO da Nebius confirmou metade da frase sem lhe pôr drama nenhum. Fontes de capital secaram temporariamente, disse Arkady Volozh, «incluindo financiamento garantido por ativos e mercados de dívida» — mas a empresa tem com que construir o gigawatt que prometeu. Entre a frase de Musk e a de Volozh está a notícia do fim de semana: o dinheiro que constrói a IA deixou de ser barato, e só continua a chegar a quem consegue pagá-lo com outra coisa.

    quem ainda assina o empréstimo

    A estrutura do negócio, descrita pela CNBC a partir da Bloomberg, que noticiou as conversações antes do anúncio, é a parte que interessa: os 40 mil milhões destinam-se a comprar chips da Nvidia e passam por um veículo financeiro separado, para manter a dívida fora do balanço e preservar a classificação de investment grade da empresa; o Goldman Sachs liderava as conversações com investidores, entre os quais a Apollo. Musk diz que as GPUs chegam no primeiro e no segundo trimestres de 2027 e que a dívida pode ser reembolsada antecipadamente.

    O que a SpaceX tem e as neoclouds não têm é uma fatura que não depende de IA. A unidade de IA tornou-se o maior negócio da empresa, com receita de 7,56 mil milhões de dólares no terceiro trimestre, nove vezes mais do que um ano antes, mas quem paga os juros são o Starlink e os lançamentos de foguetões. A Nebius, que na quinta-feira obteve 3,5 mil milhões de dólares de financiamento do Citi, responde com o argumento oposto: tem 40 mil milhões em contratos de longo prazo com a Microsoft e a Meta, e é isso que pode dar aos bancos como garantia. As ações caíram 33% este mês e ainda valem 90% mais do que no início do ano.

    o fornecedor tornou-se o banqueiro

    Durante anos, a Nvidia vendeu chips. Agora financia quem os compra. No relatório trimestral de julho, a empresa tinha 36 mil milhões de dólares em acordos fora do balanço para neoclouds, a que se soma a garantia de até 105 mil milhões para o centro de dados de 10 gigawatt que a OpenAI quer construir em Ohio, e 20 mil milhões em futuras rendas de centros de dados que vai depois passar a terceiros. No total, o relatório de agosto fala de mais de 500 mil milhões em compromissos fora do balanço, a maior parte a vencer até 2029.

    Em agosto, Jensen Huang anunciou com seis gestoras a intenção de tratar a capacidade de cálculo como uma classe de ativos, com até 125 mil milhões em garantias de valor residual para financiamentos de GPUs; a Nvidia entrou com 2 mil milhões no primeiro fundo da Brookfield, que quer levantar 10 mil milhões. «O que falta no meio é o capital circulante para alimentar esse crescimento», disse Huang à CNBC em Berlim, na mesma semana em que garantia que a procura das neoclouds está «fora dos gráficos». David Trainer, da New Constructs, põe a objeção no sítio certo: «Se a procura de cálculo não corresponder a estas expectativas altíssimas, vamos ter um problema.»

    o preço já se vê nas obrigações

    O mercado já votou. No fecho de sexta-feira, a Nvidia valia 8% menos do que no início de outubro, a CoreWeave 39% menos, a Nebius 32% e a IREN 39%. O spread dos credit default swaps da CoreWeave, o seguro contra o seu incumprimento, passou dos 11%, e as obrigações que vencem em 2031 e 2032 rendem mais de 15% — para uma empresa com 51,6 mil milhões de dívida. A australiana Firmus desistiu da entrada em bolsa este mês; a Nscale e a SB Energy apresentaram pedidos em setembro e não voltaram a dizer nada.

    O aperto também já se escreve nos contratos. Segundo o The Information, os inquilinos de centros de dados passaram a exigir mais de 5 milhões de dólares por dia em penalizações por atraso na entrega, contra 1 milhão na primavera, e a corretora Marsh desenhou apólices para cobrir esse risco. O corpo da notícia está fechado a quem não assina: os números são do resumo do jornal, não lidos no original.

    entretanto, o token ficou 80% mais barato

    Enquanto o crédito apertava, o preço do produto caía a pique. A 30 de julho, a OpenAI cortou 80% ao GPT-5.6 Luna; a 22 de setembro lançou o GPT-6 Sol a metade do preço por token; no mesmo dia, a Anthropic lançou o Opus 5.5 com uma redução total de 40% a 60% e a frase, no comunicado, de que «exige menos cálculo para servir». Uma semana depois, o GPT-6.1 Sol cortava a leitura de cache para metade. Somadas, as reduções fazem estes modelos 75% mais baratos do que em junho.

    Max Woolf, que fez a cronologia, acrescenta o dado que muda a leitura: nos números da Vercel, o custo por token está em 43,3% do que era em abril, mas a despesa total continua a subir, porque os modelos melhoram mais depressa do que barateiam. E conta o que fez quando o custo do seu agente caiu 75%: baixou o limite de utilização para um quinto. Ficou a gastar o mesmo. É a parte incómoda para quem empresta: um preço mais baixo não multiplica o consumo por quatro, e a OpenAI reduziu para metade a quota do plano de 200 dólares do Codex no mesmo anúncio. Woolf nota ainda que as duas empresas estão perto da entrada em bolsa — a Anthropic talvez em semanas — e que cortar a principal fonte de receita antes de um prospeto não é o que se faz para agradar a investidores.

    Nada disto prova que a IA não se paga. Prova que duas curvas se cruzaram no mesmo fim de semana: o dinheiro ficou mais caro e o produto ficou muito mais barato. Durante dois anos, a resposta foi pedir mais emprestado. Desde domingo, quem assina o empréstimo quer ver a receita que não vem da IA.

    fontes