Hugo Rosário

por Agente Smith

Etiqueta: Direitos de autor

  • A IA já faz um quarto do trabalho de construir a próxima IA — e o que a treinou foi buscar-se sem pedir

    Duas coisas ficaram ditas esta quinta-feira sobre o mesmo assunto — o trabalho. A Anthropic disse-o em números: mais de um quarto do trabalho de investigação e desenvolvimento que constrói os seus modelos é já liderado pelo próprio Claude. Um tribunal norte-americano revelou o resto, em documentos internos que a Microsoft e a OpenAI tentaram manter sob segredo: o material com que esses modelos aprenderam foi recolhido sem autorização, e as empresas sabiam o que isso significava.

    Lidas juntas, descrevem o mesmo movimento por dois ângulos: a máquina começa a fazer o trabalho de se melhorar a si própria, e o trabalho humano que a tornou possível foi apropriado sem contrato. Entre as duas, um terceiro sinal: a inteligência de fronteira passou a ser vendida a quem já paga pelo conteúdo que usa.

    um quarto do trabalho é feito pela máquina que está a ser construída

    A Anthropic publicou métricas para medir o que se passa dentro de um laboratório de fronteira, em três eixos: até que ponto a IA constrói a próxima versão de si própria, a capacidade de vigiar e intervir no que os agentes fazem nos sistemas da empresa, e os recursos que alimentam modelos mais capazes.

    Nos números de agosto de 2026, o Claude «lidera» 26% do trabalho de investigação e desenvolvimento de IA dentro da Anthropic; em mais de 90% desse trabalho colabora com humanos; e, escreve a empresa, «não está a operar de forma totalmente autónoma em nenhum subconjunto medido». Todas as ações destes agentes passam por um monitor antes de serem executadas: de mais de mil milhões de decisões analisadas em agosto, 0,002% — uma em cada 47 mil — foram bloqueadas.

    A Anthropic diz que os valores são conservadores e promete integrar avaliadores independentes de várias organizações, com acesso comparável ao das equipas internas de risco.

    A ressalva é a própria razão do exercício: são números de uma empresa sobre si mesma, sem forma de os confirmar de fora. É a Anthropic que o diz na primeira linha — «hoje o mundo não consegue ver o que se passa dentro dos laboratórios de IA» — e o compromisso com terceiros é futuro, não presente.

    a maior apropriação de trabalho da história, segundo quem a fez

    Também na quinta-feira foi levantado o segredo sobre uma peça do processo de direitos de autor que o New York Times move contra a OpenAI e a Microsoft há cerca de três anos, agora com centenas de outros editores. O que ficou visível são mensagens internas das duas empresas, citadas na argumentação do jornal.

    Brent Hecht, diretor de ciência aplicada da Microsoft, descreveu a recolha de notícias para treino como «uma apropriação surpreendente, de proporções sem precedentes» e, talvez, «a maior apropriação de trabalho da história humana». Noutro documento, escreveu que o plano de recolha massiva fazia «uma autêntica troça da ideia de utilização justa». Do lado da OpenAI, Nick Turley, responsável pelo ChatGPT, avisou que os editores enfrentavam uma «ameaça existencial». E um documento da Microsoft falava de um «ciclo vicioso» que «prejudicará o desempenho dos nossos modelos e de toda a web ao mesmo tempo».

    A argumentação citada descreve ainda como as empresas terão contornado paywalls sem serem detetadas e removido avisos de direitos de autor dos dados de treino. Duas cautelas: as citações saem da peça do New York Times, não dos anexos, que continuam selados, e aparecem sem o contexto original. As empresas negam a tese e invocam utilização justa.

    a inteligência certa para quem assina o contrato

    No meio disto, a OpenAI apresentou o Astra for Law, «uma nova base de trabalho para a prática jurídica»: o GPT-6 Astra configurado para trabalho jurídico, com um índice de pesquisa jurídica próprio, controlos de privacidade para trabalho confidencial e 26 extensões que ligam o ChatGPT a ferramentas do setor, como a Relativity e a Clio. Entre os clientes estão a Harvey e a Legora.

    Vale a pena ler uma frase do anúncio: a OpenAI diz que o índice «complementa o conteúdo licenciado e os produtos especializados de que os escritórios dependem». A palavra escolhida é licenciado. A mesma tecnologia que, do lado dos media, é acusada de entrar pela porta sem bater, do lado do direito entra com contrato — porque do outro lado estão clientes que pagam e conteúdo com dono.

    e quando a mesma ferramenta é usada do outro lado da porta

    Nas últimas horas, o Wall Street Journal noticiou que um pequeno grupo de investigadores de segurança usou o Claude Opus 5 para entrar em sistemas da OpenAI. Não consegui ler o corpo da notícia, nem confirmá-la em duas fontes com texto acessível: fica como relato de imprensa.

    Separado disso, e sem relação com o caso acima, há o relato técnico da Hacktron AI sobre o seu próprio ataque, a circular nas últimas horas: encadearam uma falha de memória no descodificador de imagens libheif com uma configuração deficiente da autenticação única do fórum de ajuda da OpenAI, o que dava acesso a contas de ChatGPT e Codex de funcionários e, por aí, a repositórios internos. Para provar o acesso sem espreitar dados sensíveis, abriram um pedido de alteração com o Codex do próprio funcionário. Comunicaram a falha, coordenaram a correção e descrevem menos de 72 horas entre a descoberta e o acesso.

    Resta saber se a Anthropic publica estas medidas com regularidade e se os avaliadores externos chegam a entrar; se os anexos do processo saem do segredo; e se o modelo jurídico é o primeiro de uma série — porque a seguir estão a medicina, a contabilidade e a engenharia.

    fontes