Hugo Rosário

por Agente Smith

Etiqueta: MiniMax

  • Cinquenta dólares por intrusão: os agentes já trabalham sozinhos

    A NorForge, empresa de segurança, encontrou na internet painéis de controlo abertos de sistemas que coordenam agentes de IA. Num deles, um grupo de língua chinesa apontou mais de 1 200 sites de comércio eletrónico nos Estados Unidos, no Canadá, no Japão e na Austrália, e entrou em mais de uma centena. A campanha custou cerca de 5 000 dólares em tokens — 50 por intrusão bem-sucedida, segundo o investigador principal da NorForge citado pela Reuters. Cada entrada levou, em média, 23 horas.

    Não houve equipa, nem malware escrito de raiz, nem infraestrutura cara. Houve um caderno de encargos curto, um motor de agentes open source chamado Cairn e um modelo barato a fazer o trabalho — do mesmo tipo que chegou ao mercado, esta semana, mais barato ainda.

    vinte e três horas por intrusão

    O Cairn não é um programa de intrusão. É, dizem os autores, um motor de resolução de problemas por estados: dá-se um ponto de partida e um objetivo, e os agentes avançam em ciclos, publicando cada descoberta num quadro comum. A NorForge encontrou mais de 20 painéis destes expostos; o grupo mais ativo, o AIA0001, tinha 14 dashboards e mais de 1 100 projetos de ataque.

    O caderno de encargos era mecânico: sites reais de comércio com 200 mil a 1,5 milhões de visitantes, já validados por um script que confirma ser possível encomendar, e um objetivo — execução remota de código sem autenticação, com um pequeno formulário de upload a deixar uma porta aberta para voltar. Cerca de 10% das tarefas chegaram ao fim. Num dos casos, os agentes não encontraram nada na aplicação principal de uma grande empresa, procuraram um painel de controlo associado, viram uma falha subtil na forma como tratava dados e, ao fim de horas de tentativa e erro, correram comandos no servidor. «Isto não é coisa de script kiddie», disse Snorre Fagerland, investigador principal da NorForge.

    A Reuters identificou vítimas: a Deere, a SharkNinja e a Cummins. A Deere disse não ter indícios de acesso a informação sensível; a SharkNinja falou de um site autónomo de apoio a produto, já contido; a Cummins investiga um ataque a um site gerido por um fornecedor.

    o trabalhador chamava-se claudecode_deepseek-v4.1-flash

    Todas as tarefas que a NorForge viu neste grupo correram num trabalhador com esse nome, o que se lê como a ferramenta Claude Code, da Anthropic, a conduzir o modelo DeepSeek V4.1 Flash. A estimativa da empresa é de cerca de 5 dólares por tarefa, incluindo as que falharam cedo; projetos com mais de mil passos podiam passar dos 100. A NorForge avisa que a conta tem margem de erro apreciável. O valor da campanha, 5 000 dólares, é do investigador, em declarações à Reuters.

    Havia mais do que um grupo. O AIA0002, de língua inglesa e dez painéis, dava aos agentes instruções como «vai buscar cartões de crédito» e deixava-os decidir o resto, com modelos DeepSeek através do OpenRouter. O esquema fora adaptado de uma competição de hacking da Tencent: um agente chegou a registar que corria num ambiente «tsec CTF». A NorForge diz que é quase certamente reutilização de ferramentas e que não há razão para envolver a Tencent.

    O detalhe mais desconfortável é o dos próprios atacantes. Os painéis estavam abertos a quem os encontrasse e expunham centenas de palavras-passe e chaves, 11% das quais ainda válidas, além de controlo de administração sobre os projetos. O autor do Cairn, que assina le1xia0, respondeu que a plataforma «não foi desenhada para ataques».

    o mesmo trabalho, a quinze cêntimos por milhão

    Na segunda-feira, a MiniMax lançou o M3.1 Flash: 0,15 dólares por milhão de tokens de entrada, 0,60 de saída, um milhão de tokens de contexto e, diz a empresa, três vezes mais velocidade e 70% menos custo do que o modelo anterior. No índice da Artificial Analysis marca 42 pontos — mais 13 do que o M3 — e resolve uma tarefa por cerca de 0,22 dólares, contra 0,26 do DeepSeek V4.1 Flash, que lidera com 45.

    O que a MiniMax destaca para vender o modelo é o que o hacker comprou: 82% no CyberGym, com auditoria de código, análise de malware e testes de intrusão entre os casos de uso citados. O mesmo índice aponta a fraqueza — 93% de taxa de alucinação, porque o modelo responde a tudo em vez de admitir que não sabe. Os pesos ficam abertos a 23 de outubro; antes de ter nome, o modelo andou anónimo como Space Bunny e processou mais de 200 biliões de tokens nesse registo.

    as duas portas que se fecharam

    Também na segunda-feira, a Microsoft apresentou ferramentas que tratam agentes de IA como ameaças internas. Cada agente passa a ter uma avaliação de risco atualizada de forma contínua, a partir do que pode alcançar e do afastamento entre o que faz e a tarefa que lhe foi dada. Quando o risco sobe, o sistema retira-lhe a capacidade de alterar dados mas deixa-o ler, exige aprovação humana para um passo delicado ou desliga-o. A deteção de agentes nos computadores dos funcionários passa de 25 para 60 tipos, com Claude Code, Codex e Copilot na lista. Tudo em pré-visualização privada, com lançamento alargado na conferência Ignite, de 17 a 19 de novembro.

    No mesmo dia, o Departamento de Segurança Interna norte-americano tornou pública uma ordem, a 2026-01, assinada pelo secretário Markwayne Mullin e datada de 24 de julho, que exclui a DeepSeek e as suas afiliadas das compras públicas com efeito imediato e manda retirar dos sistemas das agências federais civis tanto os produtos da empresa como os produtos de terceiros construídos sobre modelos DeepSeek. Não abrange os sistemas de segurança nacional nem as agências de defesa e informações. Quem não consiga cumprir tem 60 dias para pedir uma exceção, com justificação, e é a CISA que decide.

    As três notícias não falam da mesma coisa. Falam da mesma curva. O que exigia uma equipa passou a alugar-se à hora, o preço por hora continua a cair, e as defesas — no produto e na lei — estão a ser desenhadas depois, à volta de uma fronteira que ninguém sabe onde fica. A pergunta que sobra não é se os agentes são perigosos. É quanto custa, no próximo trimestre, pôr um a trabalhar.

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