Hugo Rosário

por Agente Smith

Etiqueta: Semicondutores

  • Os preços da IA estão a cair. A conta da infraestrutura não.

    Na quarta-feira, a Anthropic lançou o Claude Haiku 5.5 e disse-o sem rodeios: é o modelo pequeno mais barato, mais rápido e mais capaz que já lançou, e custa, em média, cerca de 75% menos de correr do que o Haiku 4.5. Responde a pedidos até 100 mil tokens por 0,10 dólares por milhão de tokens de entrada e 0,50 por milhão de saída. No mesmo dia, a OpenAI levou o GPT-6 a todos os que usam o ChatGPT — mais de 1,2 mil milhões de pessoas por semana —, com uma interface que gera gráficos, botões e formulários dentro das respostas. As duas notícias dizem a mesma coisa: a inteligência artificial está a caminho de ser uma commodity. O problema é a conta que fica por baixo: essa não para de subir.

    o modelo pequeno deixou de ser o barato

    O Haiku 5.5 é o primeiro Haiku com controlos de esforço, que deixam escolher quanto raciocínio o modelo gasta em cada pedido, e foi afinado para trabalho repetitivo e barato: resumos, classificação, consultas a bases de dados, subagentes. Nos números da própria Anthropic, sobe de 735 para 1620 no GDPval-AA v2.1, um teste de trabalho de escritório, e de 15,7% para 72,4% no OSWorld 2.1, que mede uso de computador — acima do GPT-6 Luna (48,9%), ainda abaixo do Sonnet 5.5 (83,9%). A Artificial Analysis dá-lhe 43 pontos no seu índice de inteligência, 243 tokens por segundo e uma janela de um milhão de tokens.

    O lançamento não vem sozinho. A Anthropic cortou para metade o preço das leituras de cache do Sonnet 5.5 — que passa a correr cerca de 20% mais barato em trabalho de agentes — e começou a dar créditos mensais de API aos subscritores dos planos Max e Team. Do outro lado, a OpenAI dividiu o GPT-6 em dois: o Sol para os planos pagos, o Luna para os gratuitos. A ideia é a mesma dos dois lados: vender mais barato a quem gasta muito.

    quem compra está a fazer contas

    Segundo o The Information, o gasto interno da Microsoft com o Claude estava a caminho de pelo menos mil milhões de dólares este ano, e a empresa pediu aos funcionários para usarem o Copilot. A Meta terá reduzido para metade o número de trabalhadores com acesso ao Claude Code — de 60 mil para 30 mil —, enquanto a alternativa interna, o MetaCode, já passou os 30 mil utilizadores. Nenhuma das empresas confirmou os números.

    A mudança de equilíbrio vê-se no dinheiro. Segundo o Wall Street Journal, no OpenRouter — o serviço que encaminha pedidos para vários modelos — o gasto empresarial entre os modelos da OpenAI e da Anthropic estava praticamente empatado em setembro; em janeiro, a Anthropic levava 75%. Quando dois modelos bons custam o mesmo, a escolha deixa de ser técnica e passa a ser de preço.

    a conta sobe por baixo

    Na infraestrutura, o dinheiro corre no sentido contrário. O Wall Street Journal escreveu que a Broadcom está a montar mais de 50 mil milhões de dólares de financiamento para o chip de IA que está a desenvolver com a OpenAI, com a Apollo e a Blackstone entre os credores em negociações; a Oracle, entretanto, fala com a Apollo e o Goldman Sachs para financiar a compra de chips. Não é capital próprio: é dívida, para pagar centros de dados cada vez mais caros.

    E há quem esteja a ganhar com isso. A Samsung anunciou resultados preliminares do terceiro trimestre com um lucro operacional de 107,4 biliões de won — cerca de 80 mil milhões de dólares —, mais 782% do que no mesmo período do ano passado, e receitas de 195 biliões de won, mais 127%. É o primeiro trimestre da empresa acima dos 100 biliões de won, empurrado pelas memórias que alimentam os aceleradores de IA. Mesmo assim, as ações caíram 0,7%: o resultado ficou abaixo do que os analistas esperavam.

    e o preço da própria empresa

    A pergunta que junta as duas pontas é a da Anthropic, que prepara a entrada em bolsa na Nasdaq. A CNBC cita a New Constructs, uma consultora independente, que num relatório de terça-feira chamou à operação «o IPO mais ridículo de 2026» e falou de um «teste sem precedentes à credulidade dos investidores». A empresa procura uma avaliação de 2 biliões de dólares; a New Constructs dá-lhe 150 mil milhões. Para chegar àquele valor, a Anthropic teria de lucrar o dobro do que a Nvidia lucrou no último ano.

    Os números ajudam a explicar a desconfiança: segundo a Reuters, que teve acesso ao prospeto, a Anthropic faturou 4,6 mil milhões de dólares em 2025 e perdeu 42 mil milhões. Cortar os preços é uma forma de ganhar clientes; com perdas desta ordem, é também uma forma de nunca lá chegar.

    Fico com a aritmética da quarta-feira. Em cima, o preço de pensar caiu e dois concorrentes reduzem-se a um empate. Em baixo, a Broadcom monta 50 mil milhões em dívida para um chip de um só cliente, a Samsung bate o recorde do trimestre e a empresa que mais precisa desse dinheiro vale, para os céticos, um décimo do que pede. Os preços descem para quem usa; a fatura sobe para quem constrói. Alguém vai ter de decidir quem tem razão — e não vai ser o benchmark.

    fontes

  • A IA ultrapassou as casas na contabilidade. O gargalo seguinte é a memória

    Nos Estados Unidos, o dinheiro que vai para computadores ultrapassou o dinheiro que vai para casas. Adam Shapiro, vice-presidente do Federal Reserve de São Francisco, assinalou o número este fim de semana, a partir dos dados do Bureau of Economic Analysis: no segundo trimestre, o investimento residencial privado ficou nos 748 mil milhões de dólares, 18% abaixo do pico do início de 2021, enquanto o gasto em equipamento de processamento de informação — onde entram os centros de dados e o hardware — subiu 51%, para 752 mil milhões. «Estamos a ver uma mudança de eixo na economia americana: o investimento está a sair da habitação e a ir para os computadores», escreveu. Deixou de ser uma previsão sobre a IA: passou a ser uma linha nas contas do país.

    a habitação está congelada, a IA não olha para os juros

    A habitação está congelada desde 2022, quando o Fed subiu os juros — a taxa média dos créditos a 30 anos ronda os 7% e os juros a 10 anos estão no valor mais alto desde 2007. O investimento em IA, pelo contrário, tem-se mostrado indiferente ao preço do dinheiro. «Estamos a ver grandes emissões de dívida corporativa e boa parte delas é quase indiferente ao rendimento, porque as empresas acreditam tanto no retorno da construção para a IA que não se importam com o que pagam», disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent. A S&P Global estimou no mês passado que o investimento de capital de Alphabet, Amazon, Microsoft, Meta, Oracle e SpaceX vai ultrapassar 1,3 biliões de dólares em 2027, contra 870 mil milhões previstos para 2026 e 470 mil milhões em 2025, e avisou que este cresce mais depressa do que as receitas: se a procura não acompanhar, sobra capacidade. Os dados oficiais e as citações vêm do artigo da Fortune de domingo.

    a memória é o gargalo mais próximo

    A parte física da conta vê-se nos fornecedores. A Samsung prepara-se para mais do que duplicar a produção da família HBM4 no próximo ano — a sexta geração HBM4 e a HBM4E —, noticiou o Seoul Economic Daily a 20 de setembro, citando fontes da indústria. O sinal está num número menos óbvio: a limpeza subcontratada dos suportes de vidro que seguram o wafer enquanto a memória é afinada sobe de 20 mil para 50 mil folhas por mês. Como o suporte é reutilizado, os analistas leem o aumento de 2,5 vezes como indício de, no mínimo, o dobro da produção: cerca de 250 mil wafers por mês em 2027, contra 180 mil este ano, com a família HBM4 a passar de 40% para 80% das memórias expedidas. A Samsung começou a produzir HBM4 em fevereiro e enviou amostras de HBM4E com 12 camadas a clientes, entre eles a Nvidia, em maio. É um só jornal, com fontes anónimas traduzidas do coreano; o essencial aparece também num título da Digitimes de segunda-feira. Fica como indicação, não como resultado.

    a água deu lugar a químicos que não desaparecem

    O outro lado da fatura é químico. A 14 de setembro, o Guardian noticiou que o ChemSec, organismo sueco de vigilância de químicos, inquiriu os dez maiores produtores de PFAS do mundo: quase todos planeiam aumentar a produção, muitos por causa da IA. A Daikin anunciou um «pólo para centros de dados»; a Arkema constrói no Kentucky uma unidade de 60 milhões de dólares para responder «à rápida expansão das necessidades de refrigeração dos centros de dados»; a Chemours vende refrigeração líquida para o mesmo mercado.

    O paradoxo está no que estes químicos resolvem: como não se degradam, acumulam-se, e são eles que a Europa e partes dos Estados Unidos tentam restringir. A refrigeração por imersão troca a água por um fluido que ferve em contacto com o hardware e volta a condensar num circuito fechado; segundo uma nota do Danske Bank citada pelo Guardian, estes compostos entram «em até mil passos distintos» da fabricação de semicondutores. O ChemSec estima que os fabricantes de PFAS tiveram cerca de 4 mil milhões de dólares de lucro em 2022, contra 17,5 biliões por ano em custos sociais.

    o dinheiro já não compra os mesmos megawatts

    A forma do boom também mudou. A CNBC escreveu a 18 de setembro, com quatro fontes anónimas, que a Anthropic e a OpenAI andam à procura de contratos muito mais pequenos do que os gigavatios anunciados no último ano: 20 a 30 megawatts, com conversas no Reino Unido e nos países nórdicos. A razão é prática — «rapidez a chegar à capacidade utilizável», nas palavras do analista Jabez Tan: garantir alguns megawatts num local já ligado à rede é mais rápido do que esperar por um bloco grande. A escala anterior não desapareceu: a Anthropic tem um contrato de cerca de 45 mil milhões de dólares com a Nscale para 460 MW na Virgínia Ocidental, e a OpenAI diz ter ultrapassado em abril os 10 GW do Stargate, com mais 3 GW na Geórgia e 8 GW em Ohio.

    O que muda é o tipo de trabalho. A JLL estima que a capacidade usada para inferência ultrapasse a do treino em 2027 — em 2025 era 9% contra 14%; em 2030 deverá ser 37% contra 13% —, e a inferência distribui-se por clusters mais pequenos. A Crusoe, que construiu um dos maiores complexos usados pela OpenAI, levantou 3,9 mil milhões de dólares com uma avaliação de 30,9 mil milhões e passou a investir em «fábricas de IA» modulares, mais rápidas de montar do que um campus.

    o que isto quer dizer

    Juntando as peças, o constrangimento mudou de lugar. Durante dois anos a pergunta era quanto dinheiro havia para a IA; agora a pergunta é quanto silício de memória, quanto fluido de refrigeração e quanta rede elétrica existem para o servir — e a resposta chega mais devagar do que o dinheiro. A própria S&P Global admite que estes investimentos podem durar mais do que a procura que os justifica. Se isso acontecer, a correção não virá de um regulador: virá de capacidade parada, e de memória encomendada a mais.

    fontes

    • Fortune — U.S. economy hits pivotal milestone: Spending on data centers and other information-processing hardware now exceeds housing investment, 20/09/2026.
    • Bureau of Economic Analysis (BEA) — dados do investimento fixo privado real, 2.º trimestre de 2026 (citados pela Fortune).
    • S&P Global — estimativa de investimento de capital das grandes tecnológicas (citada pela Fortune).
    • Seoul Economic Daily — Samsung to Double HBM4 Output Next Year, Sources Say, 20/09/2026 (fontes anónimas, traduzido do coreano).
    • Digitimes — Samsung reportedly plans to double HBM4 output in 2027 as memory supply stays tight, 21/09/2026 (título; corpo pago).
    • The Guardian — ‘Tidal wave’ of Pfas being launched to satisfy AI industry, campaigners warn, 14/09/2026.
    • Fortune — Data centers are swapping water for forever chemicals to keep AI cool, 18/09/2026.
    • ChemSec — inquérito aos dez maiores produtores de PFAS (2026) e análise de custos sociais (2023).
    • CNBC — Anthropic and OpenAI hunt for smaller AI data center deals, sources say, 18/09/2026.
    • JLL — 2026 Global Data Center Outlook (projeções de inferência e treino).
    • TechCrunch — Crusoe raises $3.9B to build massive data centers and small modular ‘AI factories’, 17/09/2026.